A ideia, que concretizou, de desenhar e estampar em rótulos de caixas de fósforos caricaturas do recém-entronizado Amadeu de Sabóia, valeu-lhe, a par de um êxito célere, a perseguição policial e o encarceramento. Liberto, ainda trabalhou em oficinas litográficas – que não a de seu pai – no país vizinho.
Todavia, face a um ambiente político que persistia em não favorecê-lo, Casanova, cerca de 1880, decidiu-se pela vinda para Portugal.
Aqui obteve trabalho, de imediato, na Litografia Portugal, onde, mercê da qualidade da sua obra, se destacou dos restantes colaboradores.
Nesse ano de 1880, por ocasião das comemorações do tricentenário da morte de Camões, Enrique Casanova fixou na revista «O Occidente», através de ilustrações de excelente factura, os momentos mais significativos do evento. E ao mesmo tempo que a ampla divulgação da revista dava azo a que o trabalho de Casanova prendesse as atenções de um público considerável, outro facto iria marcar decisivamente e para sempre a vida do artista espanhol.
Com efeito, na mesma altura, ao executar uma aguarela do Chiado e do Largo Camões, Casanova foi surpreendido pelo olhar atento e conhecedor de Juan Valera, embaixador de Espanha em Lisboa, que oportunamente o recomendou ao rei D. Luís.
Deste modo – e porque o monarca português comungasse da ideia, então em voga, de que a aguarela era o género de pintura mais propício à iniciação aos trabalhos a óleo – Enrique Casanova foi chamado para o círculo restrito da corte, a fim de instruir o Príncipe Real D. Carlos e o Infante D. Afonso naquela complexa arte.
Emparceirando com outros dez mestres, Casanova iniciou as suas novas funções de professor de pintura dos Príncipes em meados de Maio de 1881, auferindo o vencimento mensal de 30$000; trabalho que se prolongaria até Setembro de 1884, altura em que D. Carlos, por atingir a maioridade, se veria compelido ao cumprimento de obrigações da maior responsabilidade, a que os superiores interesses do Estado obrigavam.
Porém, estava longe de se esgotar aqui a actividade de Casanova como professor. E se oficialmente havia cessado de ministrar as aulas aos Príncipes, a verdade é que nunca deixaria de os acompanhar artisticamente, sobretudo a D. Carlos, de quem era admirador inconfessado e a quem reconhecia o maior talento.
Por seu lado, os restantes membros da Família Real, ante a declarada competência do pintor aragonês, não hesitaram em tomá-lo, também eles, para mestre de desenho e pintura, sendo os honorários pagos pela Administração da Casa da Rainha. Facto é que os ensinamentos de Casanova foram frutificando, emergindo claramente da obra de D. Maria Pia, de D. Luís e de D. Amélia.
Para além do Paço, Casanova alargaria o seu magistério, quer no âmbito privado, atendendo a inúmeros discípulos – amadores e profissionais – que particularmente o procuravam, quer no público, ao ingressar no ensino oficial.
No primeiro caso, entre os que usufruíram dos seus serviços, contam-se D. Isabel e D. Margarida Luz, filhas do Visconde de Coruche, D. Maria Domingas Cabral da Câmara (Belmonte), Eduardo Augusto da Silva, José Bazaliza, José Maria Martins, Luís António Sanches, Ribeiro Artur, Roque Gameiro, Ricardo Hogan e Manuel de San Romão. Alguns deles, aliás, frequentariam o curso nocturno de desenho e aguarela que Casanova abrira numa dependência da Real Casa Pia, em Belém.
Por outro lado, o seu ingresso no ensino oficial decorreu dos termos de um despacho de 27 de Agosto de 1888, que o nomeou professor da Escola de Desenho Industrial Gil Vicente, em Belém, com o vencimento mensal de 50$000. Suprimida esta, por Decreto de 8 de Outubro de 1891, Casanova foi colocado na Afonso Domingues, em Xabregas, para, logo a seguir e definitivamente, ser destacado para a Escola Príncipe Real, ao Rato.
Entretanto, Casanova – nomeado Pintor da Real Câmara, desde 13 de Novembro de 1885 – foi consolidando um estatuto de certo relevo na corte, passando a acompanhá-la de modo sistemático nas suas itinerâncias pelos paços reais, chegando, sem surpresa, a ver-se incluído no rol dos acompanhantes da rainha D. Amélia e dos Príncipes, na viagem cultural que esta Senhora empreendeu pelo Mediterrâneo, entre Fevereiro e Maio de 1903, a bordo do iate real «Amélia».
Nesta empresa, em que foram escaladas cidades como Cádis, Gibraltar, Argel, Tunes, La Valletta, Alexandria, Cairo, Tebas, Palermo, Nápoles, Mónaco e Marselha, Casanova revelou-se, para além de mestre atento aos registos executados pelos seus reais discípulos, fotógrafo empenhado, fixando um considerável número de imagens, procurando não raro enquadrar os seus companheiros de viagem nos mais interessantes aspectos da monumentalidade visitada.
Toda esta actividade não impedia, porém, que o artista fosse desenvolvendo a sua carreira individual, cultivando, para além da aguarela, o guacho, o pastel e o óleo, chegando a exibir alguns trabalhos na 14ª Exposição da Sociedade Promotora de Belas Artes – 1887, na 2ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes – 1902 e na 6ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes – 1906. Na Ericeira, Em Paço d’Arcos, No Cabo da Roca, Dos bons tempos, Na Guia, Recordações de Toledo, Recanto de Sintra, Espanhola, Farol de Santa Marta, Guerreiro, constituem alguns dos principais títulos que ilustram a sua pintura de cavalete. Artista «possuído de técnica segura, baseada num sólido desenho, empregando notável transparência nas aguarelas, e respeitando os brancos do papel para os pontos luminosos», Casanova afirmava-se cada vez mais como pintor de largos recursos.
Foi igualmente a aguarela que registou, por encomenda de D. Maria Pia, uma série de interiores dos paços reais da Ajuda, Cascais e Sintra, executada com a perfeição técnica que invariavelmente punha nos seus trabalhos. O respeito pela realidade que, à época, se exigia para este tipo de manifestações, revelar-se-ia da maior importância quando, um século mais tarde, o Palácio Nacional da Ajuda as tomou como fonte privilegiada para a reconstituição histórica das suas salas que, aliás, já vinha empreendendo.
O ecletismo da obra de Enrique Casanova patenteou-se outrossim na cerâmica, na escultura, na ilustração gráfica e até na decoração de um serviço de jantar, cujo tema – um veado – foi inspirado na pintura do tecto da Sala dos Brasões do Paço de Sintra. Na ilustração, são de sua autoria a litografia que ornamentou a capa do catálogo da 2ª Exposição de Quadros Modernos – também conhecida como a 2ª Exposição do Grupo do Leão – publicado por Alberto de Oliveira, em 1882; uma outra incluída no único número da revista «Lisboa – Porto», editada para a recolha de fundos a favor dos sobreviventes do incêndio do Teatro Baquet do Porto, em 1888; a ilustração da capa do romance de Rebelo da Silva, «A Última Corrida de Touros em Salvaterra», de 1888; colaboração artística no semanário de Coimbra «Jornal Para Todos», de 1889; o desenho das gravuras que ilustraram a obra «Os Filhos de D. João I», de Oliveira Martins, em 1891; o desenho dos quadros do «Compêndio de História de Portugal», incluídos na revista «Arte Portugueza», de que era, aliás, director artístico (1895); as ilustrações para o «Album Comemorativo do Centenário de Santo António», editado pelo Diário de Notícias, em 1895; a ilustração, a par de António Ramalho, do 1º volume de «Arte e Artistas Contemporâneos», de Ribeiro Artur (1896); ombreando com a rainha D. Amélia e Raul Lino, as ilustrações para o livro «O Paço de Sintra», com texto da lavra do Conde de Sabugosa (1903); colaboração no «Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal», da autoria de D. Carlos de Bragança (1903, 1907).
Como escultor, executou, entre outras peças, o bronze Cabeça de Cristo, que figurou na Exposição de Arte Retrospectiva, em 1937.
Finalmente, como ceramista, há notícias que atestam trabalhos seus de pintura e cozedura de azulejos, em diferentes fábricas.
Proclamada a República, Casanova retirou-se para Madrid – porém não antes de Março de 1911 – indo hospedar-se na Casa dos Artistas, fundada por Luís Sainz. A sua entrada nesta instituição deveu-se provavelmente ao pintor Juan José Gárate, seu velho amigo, que também o introduziu no meio intelectual e artístico da capital espanhola. Entretanto, vieram juntar-se-lhe Agustina, sua mulher e companheira de sempre, e Pilar, sua cunhada.
Em 1912, Enrique Casanova, como em reconhecimento pelo respeito e amizade com que, durante toda uma vida, fora tratado pelos colegas portugueses, não poupou esforços, numa acção de bastidores, para que o maior número possível deles pudesse participar na Exposição de Madrid desse ano, que se realizava nos Palácios do Retiro. Conseguiu, assim, que estivessem presentes vinte e cinco pintores e sete escultores portugueses.
Embora não sendo um velho, Casanova vinha padecendo, há tempos, de uma doença de estômago que muito o incomodava. Por outro lado, o assassínio do seu amigo e rei D. Carlos, os distúrbios violentos acarretados pela revolução republicana portuguesa e até o afastamento de sua filha Virgínia para Barcelona foram factores que terão contribuído para o agravamento do seu estado de saúde.
Facto é que, desde o início de 1913, as suas moléstias aumentaram e nem os esforços do médico Luís Francés impediriam a sua morte, ocorrida a 16 de Outubro desse ano.